arrowHome arrow Notícias arrow Últimas Notícias arrow Viver com força a sociedade anciã quarta, 08 fevereiro 2012  
 
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IGREJA TENRIKYO

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Viver com força a sociedade anciã PDF Imprimir E-mail
Nobutaka Minami, nascido em 1939, em Hagi, província de Yamaguchi, é formado em Literatura pela Universidade Kokugakuin. Durante trinta anos esteve relacionado na área de ensino, foi professor e exerceu cargo de diretor em escolas do ensino fundamental. Atualmente além de possuir alguns cargos na província de Yamaguchi e lecionar na Universidade de Yamaguchi, escreveu o livro “Yaeko no Hamingu” (O cantarolar de Yaeko).

Diariamente, sinto muita gratidão por poder levantar bem e com saúde e poder conversar sem problemas.

Há 18 anos, recebi o diagnóstico de câncer. A princípio eram três na parte superior do estômago e desde então, até hoje, me submeti a cinco cirurgias: no estômago, pâncreas, glândula linfática e glândula submandibular.

Na noite em que recebi o diagnóstico, senti a escuridão. Minha mulher, perambulando pelos corredores chorava e dizia: “ele vai morrer, ele vai morrer”. Na manhã seguinte, ela teve algumas atitudes estranhas como enfileirar dezenas de sacos plásticos e passou a vagar pelos quartos. Dei-lhe uma bronca pedindo que fosse mais firme e forte, pois eu também estava arrasado com o diagnóstico. Assim que me internei e submeti à cirurgia de retirada quase total do estômago, a princípio, minha esposa tranqüilizou e passou a cuidar de mim. Mas, quando as coisas pareciam estar calmas, novamente ela passou a ter algumas atitudes estranhas e passou a dizer que o já falecido irmão estava vivo.

Quando recebi alta hospitalar, toda vez que ia sair, ela me perguntava várias vezes a mesma coisa: quando vai embora? Mesmo eu respondendo, fazia novamente a mesma pergunta várias vezes. Na época, minhas três filhas achavam que ela estava ficando esclerosada em decorrência da idade, mas quando passou a vaguear, notaram a anormalidade. Ao levá-la ao hospital, foi lhe diagnosticada mal de Alzheimer. Muitas vezes, não se sabe qual é a causa do início dessa doença, mas no caso de minha esposa, talvez o choque da notícia do meu câncer provavelmente tenha sido a desencadeadora.

Certo dia, quando eu estava no terceiro ano trabalhando como Diretor da Secretaria de Educação de Hagi, voltei pra casa de madrugada. Nesse dia nevava, e assim que cheguei diante da casa, deparei-me com alguma coisa parecendo uma enorme bola de neve. Ao aproximar, me assustei, pois era minha mulher repetindo diversas vezes coisas sem nexo. Carreguei-a para dentro de casa e abracei chorando e implorando perdão. Após esse episódio, deixei o emprego e passei a cuidar 24 horas durante os 365 dias.

Para cuidar de um portador de Alzheimer, é essencial tratá-lo com delicadeza e não impedir ou estorvar sua liberdade. No caso de minha esposa, a bexiga parou de funcionar e o corpo parou de receber ordens do cérebro porque este se encontrava atrofiado. Desde então, diariamente urinava no corredor. E eu sempre espalhava folhas de jornal pelo corredor, lavava seu corpo e fazia a limpeza. Minha esposa, brava e esquecida de suas ações, sempre estava com uma boneca de ponta cabeça e usava para me bater e dizia choramingando que eu não lhe dava atenção. Cada dia ela regredia à infância.

Eu sempre costumava levar minha esposa para viajar e pousávamos uma ou duas noites. A princípio ficava contente e se divertia no local, mas na viagem de volta, ainda dentro do carro, se esquecia de tudo. As nossas viagens não ficavam na lembrança de minha esposa, só na minha.

Certo dia, nossa segunda filha foi com o filho em casa. Chamou pela minha esposa que estava logo na sua frente, mas esta lhe deu as costas e saiu cantarolando. Minha filha caiu em lágrimas dizendo: “mamãe se esqueceu de mim”. Apesar disso, uma família, independente do problema que estiver enfrentando, é uma família. Mesmo sendo apagadas da memória da mãe, minhas filhas se empenham com seriedade cuidando dela, e, essa atitude chegou ao coração de meus netos. Certa vez, quando tive que sair meu celular tocou e era meu neto dizendo que o corredor estava molhado. Eu lhe disse que voltaria logo e que era para cobrir com um jornal. Este respondeu que já o fez e que estaria de mãos dadas com a avó até eu chegar. Esse neto, naquele tempo tinha somente sete anos. Este mesmo neto, numa ocasião, quando tinha 4 anos disse:

- Vovó ultimamente está esquisita.

Então, lhe respondi:

- A vovó está com uma doença que não dá para sarar nem com o remédio e a injeção do doutor. A doença da vovó só pode ser curada com o remédio do coração que é a “bondade”.

A atitude dele fez meu coração se encher de alegria, mas também um grande aperto por estar fazendo-o passar por isso.

Como fui orientador educacional, recebia muitos convites para palestrar. Nessas ocasiões, procurava sempre ir acompanhado de minha esposa. Tomei essa atitude por acreditar que essa doença não devia ser escondida como se fosse um problema só de minha família. Quanto mais escondemos, mais a família como o próprio doente se sentirá pressionado. Meu maior desejo é que ao continuar a divulgar sobre o mal de Alzheimer ao maior número de pessoas, estas possam compreender de forma correta sobre essa doença.

Após detectar o mal de Alzheimer, até os cinco primeiros anos o doente fica acamado e de oito a dez anos falece. Minha esposa viveu doze anos. Conseguiu andar por onze anos, foram poucas, mas conseguiu falar e conseguiu expressar as emoções.

A melhor assistência para os que sofrem desse mal é não dar broncas, não repreender, não levantar a voz. Converse com suavidade, dê-lhe carinho várias vezes e, também, cante junto, dê-lhe a mão e vá passear.

Há um limite para o sentimento de ira, mas a bondade transborda sem interrupção como uma fonte e, isso sim, é a “reabilitação do coração” e acredito que seja o elo para atrasar a evolução da doença.

 
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